terça-feira, 18 de dezembro de 2007

DIAS CONTADOS XII

Soli Deo Glori - Neste Natal faz parte das minhas escolhas não sucumbir às tentações dos doces, das montras, ou do supérfluo, que tão depressa se esgotam. Desta vez vou ser audaz e acolher algo de novo, onde embora haja lugar para uma sequência de fragmentos soltos, de reconstituição de memórias distantes e felizes, também encontre espaço para alguns momentos únicos, e renovados. Opto por um cenário de esperança, onde repenso a forma de ultrapassar contrariedades e desilusões. Confrontando-me com a necessidade de me alhear, arredo-me da mesquinhez do quotidiano, que apenas me transmite um vazio disperso em interrogações.
Leve e esvoaçante mergulho na profundidade do meu interior, na minha inédita forma de repensar, para celebrar manifestações de afecto que só a ocasião sugere. Vou de encontro a outras realidades, e recrio um outro universo, quando sou desperta da minha reflexão espiritual pela perceptível Missa em Si, que oiço à distância, evocando o melhor que Bach nos deixou em música sacra. Se desconhece, faça como eu, e não deixe passar a quadra natalícia sem a ouvir. Imperdível!

À margem – Uma das minhas memórias de infância tem a ver com banda desenhada. O meu pai que era poliglota mandava vir de fora livros aos quadradinhos, da Amazon daqueles tempos, e quando chegavam sentava-nos ao colo, todos empoleirados uns nos outros, traduzindo-nos do inglês aquelas pequenas histórias absolutamente originais, que na altura ainda não tinham chegado a Portugal, e faziam as nossas delícias. Devo confessar que o Bolinha, a Luluzinha, o Careca, a Aninha, o Alvinho e todo aquele pequeno grupo de crianças ali retratadas, que em nada tinham a ver com a nossa cultura, ou quotidiano, nos despertavam sorrisos, e por vezes as maiores gargalhadas. Tudo isto para demonstrar que o humor tem um só idioma, mas não só. Um dos episódios, que se repetia nas mesmas aventuras infantis com uma certa frequência, ao qual o meu pai achava particular graça, tinha a ver com o clube do Bolinha, no qual menina não entrava, de qualquer forma, ou jeito. E dali se desenrolava uma série de peripécias lideradas por aquela personagem única, trajando sempre o mesmo vestidinho encarnado, e cabelo aos canudos, de seu nome Luluzinha! Isto passou-se ficcionalmente há cerca de 50 anos atrás, e ainda hoje no Reino Unido a tradição se mantém com clubes de acesso exclusivo a homens! Transpondo para a nossa sociedade, e para a vida do dia a dia, decorridas todas estas décadas, também aqui, por vezes, sobretudo nos meios mais pequenos, distantes das grandes urbes, ou naqueles que crescendo depressa demais, não conseguiram que as mentes acompanhassem o ritmo do progresso, o ambiente será hostil, ou intimidativo. Ocasionalmente as mulheres ainda são postas de parte, ou as próprias se auto-excluem por falta de hábito, ou confiança nelas mesmas. Olhando para trás, e analisando a genialidade do criador da Luluzinha, reconheço que através da sua inteligência, e perspicácia em demonstrar que uma menina podia ser tão, ou mais esperta que qualquer rapaz, o autor fez dela uma figura ficcional, absolutamente pioneira do sexo feminino, na questão da igualdade de direitos!


Teresa Nesler

3 comentários:

Anónimo disse...

será que vai resistir á tentação do supérfluo tais como um telemóvel novo ou um portátil?
Eu não resistia...
Feliz Natal Teresa
Lena

Teresa Nesler disse...

Se calhar até resisto porque o modelo de telemóvel que me recomendou, apesar da crise parece estar esgotado!? Mas se não for esse será outro. Do portátil veremos, pois existem outras prioridades. Se calhar vai ser um sonho adiado lá mais para adiante. Lamento é que ao contrário de mim, não tenha sido «audaz» para comentar as semelhanças entre o famoso clube do Bolinha, e uma certa realidade, que não trouxe à baila neste momento de uma forma inocente... Afinal a minha voz é a única que se faz ouvir alto e em bom som, quando todos os outros murmuram em surdina tal e qual o que eu penso!? Palavras para quê!

Alberto David disse...

Quer queiramos ou não o supérfluo está instalado nas nossas vidas, com maior dificuldade ou não, lá vamos acrescentando ao nosso inventário de coisas supérfulas o que a nem sempre nossa capacidade financeira o permite.O uso da palavra, mesmo que por vezes se faça sentir crua como o gume da navalha é um dom. Para mim prefiro sempre o gume da navalha, pois prefiro sempre ouvir alguém a desejar "Um Santo Natal".